Relatos de uma vida (Parte 10: 3 capítulos em 1!)

7 mar

Capítulo X: aprender a cuidar, cuidar para aprender, ou: a importância da dor do outro no entendimento das nossas próprias dores

Do ponto de vista lógico, ela jamais encontraria uma explicação para as suas escolhas, sejam pessoais, sejam profissionais.
A experiência naquele hospital exclusivamente feminino não só seria bela e inesquecível, mas despertaria ainda mais o seu dom de cuidar e a levaria a percorrer caminhos que, embora já traçados no Mundo Espiritual, no plano terreno, para muitos, poderia parecer sem sentido.
Interessante como as linhas da vida vão sendo traçadas! Seu primeiro contato do ponto de vista profissional com um hospital foi mais associado à vida, à alegria, do que ao sofrimento e a morte. Sim, teve dor, tiveram dificuldades, tiveram lágrimas. No geral, porém, era um lugar de nascimentos, de afetos, de trocas. Grupos com gestantes de risco, diabetes, HIV e um espaço onde estas mulheres eram acolhidas, escutadas, cuidadas. Um lugar onde as culpas do passado eram elaboradas, onde as futuras mamães se davam uma nova chance e podiam se permitir seguir em frente com um novo olhar. A nossa personagem aprendeu a não julgar, a se colocar no lugar do outro e a ajudar, reconhecendo também as próprias limitações.
Dicas sobre amamentação, palestras sobre os aspectos emocionais da gravidez, parto e puerpério. Muitas vezes surgiria a dúvida, como uma pessoa tão jovem sabia tanto a respeito e falava em uma maneira tão coinvolgente, ainda por cima sem ter tido filhos!
Acontece que nossa personagem não apenas tinha se preparado do ponto de vista da teoria, como trazia dentro de si traços de uma existência anterior, esperiências de outras vidas, guardadas em um cantinho do seu ser.
E o encontro com tantos anjinhos de luz, natimortos, ou mortos após poucos dias ou poucas horas de vida, iria aumentar ainda mais a sua fé.
Quem iria imaginar que, alguns anos depois, ela se aproximaria a um “outro mundo” ligado ao hospital. Um mundo de sofrimento, de doença, de morte. Mas, muito mais do que isto, um mundo de esperanças, sonhos, aprendizado, vivências e grandes lições!
Primeiro a psico-oncologia, depois a psicossomática e, mais adiante, os cuidados paliativos. Eis o “mundo” onde a nossa personagem foi parar. Ali, ao invés de ensinar, ela aprendeu. Ela passou a questionar modos de encarar a vida, rever prioridades e se deu conta de que se colocar em primeiro lugar, ser a personagem mais importante da sua propria história, aprender a reconhecer limites e a dizer não sem que isto a fizesse sentir-se em culpa não era uma questão de egoísmo, mas de sobrevivência.
Muitos desafios, muitas descobertas, muitas reflexões. Inicialmente, pacientes larignectomizados, em grupo e individualmente. Um desafio maior do que se pode imaginar: como fazer terapia, cujo principal instrumento do paciente é a fala, com quem “perdeu” justamente as cordas vocais? Depois, outros desafios, pacientes com os mais diversos tipos de câncer, jovens, maduros, idosos. Diagnósticos novos, recidivas, curas, paliativismo, morte, familiares. Familiares sofridos, esperançosos, revoltados, enfim, de tudo um pouco. E ela cresce juntamente com cada um deles, reflete, escreve, especialmente sobre esta doença que coincidentemente leva o nome do seu signo. Escreve sobre questões emocionais, culturais, sobre a família, sobre perdas de um modo mais geral, enfim. Muitos argumentos, mas todos ligados entre si.
Falando sobre escritos, uma coisa que a fez pensar muito foi justamente como encarar o desafio de ser psicóloga de alguém que não pode mais falar (pelo menos não do modo em que estamos acostumados). E surgiu o seguinte texto:

Trabalhando com Pacientes Laringectomizados

Trabalhar com pacientes laringectomizados totais é um grande desafio. A laringectomia total, operação realizada em caso de Câncer nas cordas vocais, acarreta, dentre outras conseqüências, a perda da fala.
Nós, seres humanos, nascemos e somos criados para sermos sujeitos “falantes”. Salvo nos casos de surdez de nascença, aprendemos a compreender a nós mesmos e aos outros especialmente através da fala. É pelo choro que o bebê se comunica, desde o seu primeiro instante de vida. Ele chora para “avisar” que chegou ao mundo e, conforme o tempo vai passando, a mãe, ou a pessoa responsável por ele, vai “nomeando” seu choro, identificando e diferenciando-o Assim, sabe se é fome, cólica, sono ou simplesmente “manha”.
O câncer de laringe, na maioria das vezes, ocorre em pessoas adultas, devido especialmente ao uso do cigarro, agravado pelo consumo excessivo do álcool. É um câncer que muitas vezes pode demorar para ser diagnosticado e que, em alguns casos, torna-se necessária a retirada total da laringe (cordas vocais). O paciente passará então a respirar por um orifício no pescoço e deverá reaprender certas atividades, como a de engolir os alimentos.
Tal operação afeta e muito a auto-estima dos pacientes. Todos os cânceres de cabeça e pescoço são causadores de grande impacto e abalo emocional. A “cabeça” é retrato, é o que é mostrado ao mundo, é a região do corpo que não pode ser escondida.
Dificilmente alguém que sofreu uma operação nesta região, ao sair na rua, não será alvo de olhares curiosos, comentários em voz baixa ou manifestações de pena ou dó. No início, é impossível “esconder” aquela cânula saindo do pescoço e, mais adiante, o protetor que tapa aquele orifício no pescoço, por onde agora eles respiram. E qual é a sensação que isto pode causar? Como é andar na rua sentindo-se, de certa forma, observado?
Alguns tiram isto de letra; outros, sentem-se mais incomodados. Alguns se recusam a usar a proteção, talvez para não “aparecerem” tanto, talvez como uma forma de negar a própria doença, como se assim ela deixasse de existir. Talvez não o usem como uma forma de auto-punição, para poder lidar com a culpa que têm dentro de si, por terem, no passado, se anulado em prol de tantas outras coisas, ter vivido muito mais a vida dos outros do que a sua própria, ou por terem negado para si mesmos que sabiam (sim, sabiam) o quanto aqueles cigarros estavam lhes prejudicando.
E, além disso, tem, como mencionado anteriormente, a perda da fala. Embora existam alternativas e, através de exercícios de fonoaudiologia, muitos voltem a falar, através da chamada voz esofágica ou com o auxílio da “laringe eletrônica”, não é a mesma coisa.
Em um mundo como o nosso, em que a comunicação pela fala é tão valorizada, perdê-la é como perder a própria identidade. Resgata-la é possível, sim, mas ela virá de outra forma. O som produzido será diferente e, da mesma forma, a pessoa certamente estará diferente.
Tanto o câncer de laringe como os cânceres em geral surgem na vida das pessoas em momentos considerados cruciais. Muitas vezes, aparecem em pessoas que, durante muitos anos, se anularam em prol dos outros, ou que passaram a vida inteira “engolindo sapos”, ódios, rancores. No caso do câncer de laringe, sabe-se que a causa principal é o fumo e o álcool. Porém, existem fatores de ordem emocional que certamente reforçam os males por eles causados, caso contrário, todos aqueles que fumam ou bebem em demasia teriam câncer de laringe. Acredito, assim, que os fatores emocionais são, junto com a questão da propensão genética, responsáveis pelo advento da doença.
Sabe-se que tudo que faz mal ou prejudica precisa ser “despejado” de alguma forma. Se não estamos bem, tanto física como emocionalmente, nosso organismo irá buscar um modo de “expulsar” este mal. Se não encontramos uma maneira saudável, equilibrada de lidar com isto, se não conseguimos deixar nossos sentimentos virem a tona, mostrar nossos desejos, se não nos permitimos “viver”, tudo que “engolimos” a vida inteira, um dia desabrochará em forma de um sintoma ou de uma doença, que pode ser desde uma simples dor de estômago, ou de garganta, ou de cabeça, até uma coisa mais séria, como um câncer.
E como trabalhar com um paciente laringectomizado?
Antes de mais nada, precisamos ter muito cuidado para que, o fato de ele se dar conta de que a doença é um “alarme”, um “grito de socorro”, não o faça sentir-se ainda mais culpado. Desta vez, culpado por ter se anulado, por ter se machucado. E também precisamos ficar alertas para que, ao dar-se conta, analisando sua vida, de coisas que “deixou para trás”, ele não passe a culpar os outros por hoje encontrar-se ali, repleto de perdas, sociais, emocionais e físicas.
É preciso fazer com que o paciente compreenda que, mais do que nunca, é hora de VIVER. Que mudanças ocorrerão, certamente, mas que talvez seja hora de ele refletir, e pensar o que deseja para a sua vida dali pra frente. É hora de estimulá-lo a fazer exercícios de fonoaudiologia, participar das reuniões em família, dar-se conta que é um sujeito normal e de que a fala faz falta sim, mas não é uma prioridade para que se viva e, especialmente, para que sejamos felizes.
No entanto, é necessário termos muito cuidado, para não darmos falsas esperanças ao paciente. Alguns, na urgência de voltarem a falar, seja com voz esofágica, seja através da laringe eletrônica, tornam-se “surdos” quando se trata de ouvir aquilo que não desejam. Existem casos em que a volta da fala é muito difícil, para não dizer impossível. E, mesmo sendo constantemente alertados desta dificuldade, os pacientes tendem a se agarrar naquele “fiozinho de esperança” que parece lhes restar. O que fazer com isto?
Aí está mais um grande desafio. Precisamos trabalhar com a auto-estima do paciente. Colocá-lo, de alguma forma, na “realidade”, sem, no entanto, tirar a esperança que o estimula a continuar batalhando por aquilo que deseja. Talvez uma alternativa seja ir, aos poucos, transformando este desejo. Em algo mais simples, mais fácil de ser realizado. E insistir. Porque iremos falar uma, duas, dez vezes. Se ele não estiver preparado para ouvir, nada do que dissemos será registrado.
Bem, mas quase ia esquecendo do maior desafio que eu, como psicóloga, tive que enfrentar, ao começar meu trabalho com laringectomizados: como fazer psicoterapia com pessoas que perderam justamente aquilo que é por nós mais valorizado, ou seja, a fala?
Isto me levou a milhares de questionamentos. Por que a gente estuda tanto para aprender a ter uma “escuta clínica”, a “ouvir” as entrelinhas dos diálogos? É claro que aprendemos também sobre comportamento corporal, reações, etc., mas nada é tão valorizado na nossa profissão quanto a fala.
A primeira coisa que me veio na cabeça é o quanto isto não acaba gerando um certo “preconceito” da parte de nós, psicólogos, em tratar pacientes deste tipo. Muitas vezes, acabamos muito mais dirigindo-nos à família do que aos pacientes em si. (Talvez como uma “fuga”, pelo medo que nós próprios temos de lidar com esta “falta”, com esta voz que insiste em não sair). Mas existem milhares de maneiras de nos comunicarmos.
Meu primeiro passo, então, foi buscar “vias alternativas” de comunicação.
O uso da escrita mostrou-se bastante eficiente e sei, por experiência própria, que existem pessoas (eu sou uma delas) que se expressam muito melhor no papel do que com palavras. Sabendo da necessidade de expor o que sente, de “botar para fora” as angústias, sugeri a adoção de um diário, onde o paciente pudesse registrar seus sentimentos, desejos, aflitos. Como um “caderno do desabafo”. O que ele iria fazer com ele depois, não interessa. Podia até rasgá-lo, colocá-lo fora. O importante não era o conteúdo em si, mas o ato de poder lidar de alguma forma com suas angústias. Mas. e os analfabetos?
Acho que com nenhum outro tipo de paciente nós psicólogos precisamos mais falar do que ouvir. E observar. Observar cada gesto, cada sinal. A maneira de olhar, a reação mediante cada palavra. Uma boa maneira de trabalhar com estes pacientes seria, num primeiro momento, através de perguntas concretas, fáceis de serem respondidas com um simples sim ou não. Depois, apostar em técnicas como o relaxamento, a visualização e mostrar, através de atitudes, compreensão. Isto, independente de serem ou não alfabetizados. Bem, estou ainda começando, e minha experiência com pacientes laringectomizados é de 2004 pra cá. A cada dia, é um novo desafio. Fico sempre me perguntando como agir, reagir, o que falar. Procuro fazer o paciente sentir-se à vontade, permitir-se rir, chorar, reclamar. Nem sempre sei se fiz a coisa certa. Mas é justamente aí que mora o desafio. É aprender mais a cada dia, sem medo, e poder ajudar cada ser humano da melhor forma possível. Meu maior desejo é transmitir algo de bom, é fazer o bem para cada um que se aproximar de mim. E que cada paciente tenha, a cada dia, a sensação e a certeza de que a vida vale a pena, e de que nunca é tarde para recomeçar, mesmo quando a morte está próxima. Que cada minuto vivido é o melhor minuto de todos. E que quando partirem desta vida, partam serenos e em paz, especialmente em paz consigo mesmos, com os seus próprios corações

Grupo de laringectomizados, clínica de quimioterapia, e a união, em um trabalho escrito, de 3 matérias repletas de coisas em comum: a Psico-oncologia, a Psicossomática e os Cuidados Paliativos, todos eles com uma visão de ser humano que sempre foi a sua, embora talvez ela inicialmente não a tivesse tão clara: o homem como um ser bio-psico- social- espiritual.
Falando em espiritual, a sua forte ligação com o mundo dos espíritos a levaria a escrever um outro texto que, embora a uma primeira vista poderia para alguns até parecer psicografado, se tratava, sim, de um sua criação, embora sem dúvidas ela tenha sido orientada pelos seres de luz que a acompanham sempre!

Laringectomia e Espiritismo

Há algum tempo, venho me questionando acerca da questão dos laringectomizados totais, sob o ponto de vista do Espiritismo. Que explicações haveria, segundo esta doutrina, para a perda da voz?
Embora eu tenha nascido e sido criada dentro da Doutrina Espírita, acabei, com o tempo, me afastando da mesma, sem, no entanto, deixar de nela acreditar e, indiretamente, de aplicar, no meu dia-a-dia, seus principais preceitos (amar ao próximo e fazer o bem, sem olhar a quem). De uns tempos pra cá, no entanto, retomei as consultas, passes e, especialmente, as leituras. E passei a desejar compreender melhor algumas coisas com as quais estou mais envolvida atualmente. Dentre elas, a questão dos laringectomizados, visto que, desde o início de 2004, sou voluntária de um grupo de pacientes que foram submetidos à cirurgia de laringectomia total. (para quem não sabe, a laringectomia total consiste na retirada cirúrgica das pregas (cordas) vocais devido a câncer e acarreta, com isto, a perda da voz). Então, pergunto: “Do ponto de vista do espírito, o que leva a isto”?
Passei, eu mesma, a criar algumas hipóteses, que irei relatar a seguir. Saliento que tais “teorias” não foram por mim encontradas em livros (ao menos não de forma direta), nem me foram relatadas por espíritos superiores, sob a forma de sonhos ou mensagens psicografadas. Embora todos sejamos médiuns, não tenho tais qualidades desenvolvidas. Não tenho, no entanto, como afirmar, com absoluta certeza, que as hipóteses traçadas sejam única e exclusivamente advindas da minha própria dedução ou imaginação. As perguntas que me vêm seguido à mente são:
Teriam estas pessoas, em encarnações anteriores, feito mau uso de um dom tão rico como o da voz? Teriam usado sua voz para falar mal dos outros, fofocarem, prejudicar os seus semelhantes? Teriam usado a voz pra praticar discursos que incutavam a disputa, a raiva, a violência? Teriam dado início á guerra? Teriam usado a voz como instrumento que fere, como arma, muitas vezes letal?
Teriam, em outras vidas, sido degoladas? E, devido á brutalidade e violência de suas mortes, voltado para terminar uma missão inacabada, mas tendo restado uma seqüela da vida anterior?
Seriam estes espíritos suicidas, que “deram cabo” da própria vida, através do enforcamento? Espíritos que vieram agora afim de “resgatar” algo, aprender, redimir-se do maior crime de todos, que é o matar a si mesmo, atitude esta que vai de encontro às leis da vida e do Criador?

Tenho pensado muito nisto, e confesso que em alguns momentos chego a me angustiar. Afinal, as pessoas que conheço que sofreram tal cirurgia cometeram erros sim, especialmente contra si mesmos (a bebida, o cigarro, são suicídios disfarçados). No entanto, são pessoas de caráter, de um coração enorme, e que me ensinam, a cada dia, novas lições. Em função disto, eu preferia pensar que eles, na verdade, são espíritos que antes de ingressar nesta vida fizeram esta escolha para trazer lições, aprendizagens, a todos nós. Pois através de suas experiências passamos a dar mais valor à vida, revemos valores, etc. Mas não tem como não pensar nas hipóteses anteriores. E, assim sendo, Deus demonstrou mais uma vez sua infinita bondade e sabedoria, presenteando-nos com o “dom do esquecimento”. Caso contrário, como lidar com a dor, a raiva, a culpa?
Talvez eu nunca encontre uma resposta para esta questão. Ao menos não nesta encarnação. De uma coisa, no entanto, eu sei. Nossos caminhos se encontraram por alguma razão. E, neste convívio aprendo, a cada dia, uma nova e grande lição.
Marian Festugato de Souza, 29 de setembro de 2007

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Relatos de uma vida (Parte 9: e o cuidar continua!)

6 mar

Capítulo IX. E o cuidar continua

“Crianças normais”. Assim que as pessoas costumam se referir quando uma criança se “enquadra” nos tantos títulos e explicações que costumamos ouvir por aí. Por dentro, no entanto, são sempre espíritos.
Desta vez, o “desafio” que teria de ser enfrentado era especialmente com 3 grupos: o primeiro era o berçário, com seus doces (e arteiros) bebês. Os outros, a turminha do maternal 2 (3 anos de idade, mais ou menos) e a dos “grandes” de 5, 6 anos, incluindo um menino com Síndrome de Down)
Episódios marcantes? Tantos! A festa de Natal, emocionante e inesquecível! As brincadeiras no pátio! Aquela vez no berçario em que após o banho, um dos bebês, num primeiro momento estava “sentadinho” na bancada e, num segundo de distração da senhora responsável, tentou “descer” dali, escorregando? Ela (nossa personagem) o pegou literalmente “no ar”, simplesmente estendendo o braço para o lado, numa mistura de intuição, sorte e sei lá mais o quê.
Em outro momento, observar os “grandes” que, quando a professora se ausenta da sala por alguns minutos, começam a discutir “temas filosóficos” como “ de onde viemos” “, como nascem os bebês”,etc. Aquele foi certamente um aprendizado também para aquele espírito que, um dia, iria ter de responder a estas mesmas perguntas àquele serzinho que lhe seria enviado por Deus. O que mais lhe chamara a atenção? O quanto cada um defendia com unhas e dentes a sua idéia!

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Relatos de uma vida (Parte 8: quando a gente gosta é claro que a gente cuida)

6 mar

Capítulo VIII. Quando a gente gosta, é claro que a gente cuida

Parece mesmo que uma das tarefas do nosso doce espírito, personagem destes escritos, é o “cuidar”.
Crianças e adolescentes autistas e/ou com atraso no desenvolvimento: físico, mental, intelectual. E quem foi que disse que os autistas não sabem exprimir afeto? Tá bom, até pode ser que eles simplesmente imitem os gestos do outro, mas e daí? Toda e qualquer forma de afeto é válida!
Espíritos de uma inteligência ímpar mas que, infelizmente, não souberam fazer bom uso da mesma. Espíritos que talvez tenham usado sua sabedoria e inteligência superiores de forma errônea ou abusiva e agora buscam humildemente uma forma de redimir seus erros para seguir no caminho da evolução. Assim sendo, ocupam corpos “defeituosos” aos olhares incrédulos, mas perfeitos para aqueles que sabem que os maiores valores da humanidade são o amor e a caridade.
Está para nascer ser mais carinhoso do que as crianças e adolescentes com Síndrome de Down. E quando uma criança autista te olha nos olhos e percebes a sua presença “real” (Quando ela não olha “através” de ti), é impossível não abrir um largo sorriso, nem sentir-se gratificada por aquele momento! Urge não culpar a criança pelos seus atos “impensados”, mas sim fazer uma prece aos seus espíritos protetores para que a orientem e a protejam enquanto, através do abraço e de palavras amigas, se tenta confortá-la.
Aqueles meninos eram considerados “hiperativos”. Enquanto um ia e voltava, correndo pelo corredor, abrindo e fechando portas, o outro fazia suas tarefas e, pouco antes de terminar, jogava tudo no chão, destruindo o que estava por ser concluído. Nunca ninguém parou para se questionar o que o “concluído” podia signficar para aquele menino? Ambos tinham crises de raiva. Quantas vezes ela voltou para casa com marcas de mordidas nas mãos e nos braços!
E surge um novo adolescente. Parece um animal. A falta de conhecimento dos seus pais havia feito com que eles, com medo das suas reações, o deixassem “preso” em uma pequena sala, sem nada (para que ele não fizesse mal nem a si e nem aos outros), com pedaços de jornal. Resultado: aquele menino grunhia e comia papel. Mas, aos poucos, com os cuidados dirigidos à ele e especialmente com muito afeto, foi se tornando “humano”. Ataques de raiva ainda ocorriam, mas eram bem menos frequentes. E ele era inteligente. E, quando te olhava e sorria, bem, impossível não virem algumas lágrimas nos olhos! Uma das suas crises iria marcar (literalmente) aquele espírito-mulher da nossa história.
Somente os 2 em uma sala, ele fazendo algumas atividades. Do nada, tem uma crise, um surto e, de um trato, derruba a mesa (uma grande mesa redonda) e, ao mesmo tempo, dá um soco, um murro na nossa amiga! Ela, com uma mão segurava o tampo da mesa, com a outra, segurava o adolescente (Que a estas alturas tinha se assustado consigo mesmo e a olhava sem compreender), enquanto tentava manter a cabeça erguida para aliviar o sangramento no nariz. Em seguida chegou sua colega, que o levou para o pátio.
Quanto ainda tinha a aprender a nossa personagem naquela época! Embora não tenha tido reação de raiva, ela, por um tempo, ficou com medo. E aquele espírito, que talvez procurasse apenas um modo de afeto, acabou, mais uma vez, afastando alguém. Mas felizmente, algumas horas depois, ela deixou o medo de lado e se reaproximou.
Mordidas, cuspes, socos. Marcas no corpo, mas nenhuma marca na alma. Porque a alma ficaria marcada se, diante de tais atitudes, ela apresentasse sintomas como raiva, ira, ódio ou falta de amor. Não, ela não aceitava tais reações como se fossem normais. Ela respondia, falava duro, “continha” sem machucar. Mostrava que aquilo era errado. Quando um adolescente se aproximava em tom de desafio e cuspia, ela não baixava o olhar. E quantas vezes os 2 acabavam por começar a rir!
Crianças pequenas. De 2, 3 anos. Crianças que entravam em desespero se alguma coisa da sua rotina mudava. E naquela tarde estava chovendo. Ir ao parque? Nem pensar! E aquele menino se torna inconsolável.
Aquela menina (uma moça, mas parecia uma menina) tinha sido diagnosticada com Autismo, mesmo sendo Down. Porém, a parte alguns movimentos (como rodar em torno de si mesma, sacudir objetos e algumas vezes o olhar um pouco ausente), era inteligente e carinhosa. Havia a necessidade de seguir uma rotina, mas aprendia coisas novas com facilidade. E a nossa personagem terminou seu estágio com ela, e passou a ajudar na sala as crianças menores. E, durante várias semanas, quando aquela adolescente chegava, ia até a sala onde a nossa personagem se encontrava, a pegava pela mão e a levava até a sua sala. Afinal, o que fazia ela lá com as crianças? Seu lugar era ali com ela!
Existem um livro intitulado “O Direito de Existir”, que fala da Síndrome de Down. Recomendo a leitura. E, falando nisso, nossa querida adolescente Down cumpriu rapidamente a sua missão. Tendo vivido em uma família muito amorosa (o carinho da mãe e dos irmãos por ela era lindo de se ver!), talvez tenha sido menos duro do quanto pudesse parecer ter que enfrentar a vida num corpo Down. E, certamente, quantas lições deixou para cada um que passou pela sua vida!

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Relatos de uma vida (Parte 7: o afeto e o cuidar)

5 mar

Capítulo VII. O afeto e o cuidar.

O progeto consistia em, dois dias na semana, através de jogos, brincadeiras, etc, dedicar um pouco de tempo à crianças e pré-adolescentes de um abrigo da cidade. Abrigo, “casa de passagem”, chamem como quiserem. O fato é que lá se encontravam desde crianças abandonadas até aquelas que foram “tiradas de casa” por terem sofrido violência ou negligência. Sem falar, por exemplo, em um casal de irmãos que, tendo perdido os pais, acabaram indo morar neste abrigo. Eles tinham um vô que os visitava toda a semana. Um senhor simpático, carinhoso e muito afetuoso. Percebia-se que o amor e o carinho eram recíprocos.
Sextas-feiras. Dia do berçário. Impossível esquecer aqueles anjinhos encarnados, o maior dele com dois aninhos. E os gêmeos? Uns fofos, doía o coração saber que estavam ali por neglicência. E dentre tantos momentos de afeto, de carinho, de trocas, um episódio engraçado. (Obviamente depende do ponto de vista, mas poder rir diante de situações desastrosas é um dom)
Naquele dia, a merenda era muito especial. Mousse de chocolate! Ver aqueles fofos saboreando,felizes, aquele doce delicioso, não tinha preço. Mas eis que, de repente, a nossa “heroína” percebe que algo não é o que parece. Sentado num cantinho, dando risada, com uma expressão de felicidade e a boca toda marrom, estava um menininho de 2 anos. Ela o observou e lhe chamou a atenção o movimento das suas mãozinhas. Se aproximou, e… ops! Aquilo não era chocolate! Todo faceiro, o menininho comia seu cocô como se fosse o doce e saboroso mousse.
E as crianças maiores? Aquelas, os encontros eram aos sábados. Jogos, brincadeiras, desenhos, pinturas. Através da arte, quantas histórias, quantas coisas eram capazes de expressar! Como aqueles momentos faziam com que ela, a nossa personagem, se sentisse ainda mais privilegiada e feliz pela vida que levava, pela família que tinha, pelas oportunidades que a vida lhe oferecera. E, dentre todos os episódios, algo a marcou mais do que todo o resto.
Um dia, ela sentou-se num banco no pátio e, rapidamente, se aproximou uma criança e sentou no seu colo. De repente, elas (ela e sua colega) se deram conta que aquelas crianças e pré-adolescentes não tinham recebido algo que é fundamental: afeto. Certo que o afeto pode ser demonstrado de várias maneiras e aquelas crianças tinham roupa, comida quentinha, cama, alguns brinquedos. Mas raramente tinham “colo”. Raramente tinham o “toque”, o afeto.
Ser recebida todo sábado por crianças que chegam correndo e te abraçam com alegria e afetividade, não tem preço. E hoje, muitos anos depois, ela ainda se pergunta por que o progeto precisou ser concluído e como (e onde) estarão agora aquelas crianças (hoje já adultos).
Voltemos à questão do colo. Um minuto, às vezes até menos. E bastava. Bastava, para deixar aquelas crianças mais felizes. Se percebia facilmente que eram crianças de uma instituição, que tinham aprendido a “dividir” tudo e que inconscientemente lutavam por um pouco de individualidade. Um minuto de colo. Porque, atrás dela, tinha uma longa fila de outras crianças, também esperando pelo seu momento de “colo”. Além disso, queriam também fazer as outras atividades!

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Relatos de uma vida (Parte 6: sobre a arte de cuidar)

4 mar

Capítulo VI- Sobre a arte de cuidar

Cuidar é uma arte, cuidar é um dom, cuidar é inato?
Os cuidados que ela tinha com o seu nono eram incontáveis. Uma criança que cuida de um adulto, um adulto que, no ciclo da vida, volta a ser criança. Sim, aquele mesmo adulto que lhe causava medo quando ela ia visitá-lo no hospital. Aquele cabelo penteado pra trás, aqueles óculos pesados, enfim.
Decisão tomada em família: “ele volta pra casa”! E com o passar dos anos, muda penteado, diminui remédios, tira os óculos (que serviriam, agora, apenas para ler). E ele se torna um amigo, um pai, em alguns momentos quase um “brinquedo”. Ela é criança, brinca de escola, de teatro e ele sempre presente. Ela o fantasia e o ensina a jogar, cria um caderno só dele e lhe passa tarefas. Matemática, português, história. E ele a ensina canções. Canções em dialeto Vêneto, o Hino Nacional, etc.
E ele conta histórias. Da sua vida, da família, de como entortou o dedo tentando abrir uma garrafa com um canivete.
Chega a noite. Ele sonha, tem pesadelos, perambula pela casa. Ele reza, em latim, o réquiem para os mortos. Ela num primeiro momento se assusta, mas depois acostuma e intuitivamente conversa com ele, faz uma prece, como se percebesse que, naquele momento, ele na verdade se encontra num espaço sutil entre as duas dimensões.
E ela aprende. Aprende a cuidar deste nono que a faz ainda mais feliz. O ajuda a comer, a se vestir, a caminhar, enfim. Aprende, acima de tudo, a lidar com suas manias, seus trejeitos e a interpretar seus “teatros”, suas mudanças de humor. (Era divertido sair de casa deixando-o sozinho na sala e, ao voltar, espiar pelo vidro da porta antes de tocar a campainha. Lá estava ele, em pé, lendo o jornal, conferindo documentos, etc. Até a campainha tocar. Na velocidade da luz, tirava os óculos, pegava uma manta, colocava sobre os joelhos, sentava na poltrona, fechava os olhos e abria um pouco a boca. Como se estivesse dormindo, aliás, roncando. Ou então, ia abrir a porta, sem antes, no entanto, tirar os óculos e fazer uma expressão de “dor”, acompanhada de gemidos.)
Obviamente nem sempre era assim, mas estes episódios ajudavam todos daquela casa a enfrentar as coisas de forma mais leve.
Quantas vezes ela (a nossa personagem), dando-se conta do avançar da idade e de que, um dia, ele iria partir para o Mundo Espiritual, se perguntou como seria, como ela viveria esta perda e o grau de sofrimento que isto traria. Afinal, ela nunca tinha perdido ninguém. E o tempo foi passando.
Um dia, numa manhã de fevereiro, algo acontece. Café da manhã tomado normalmente. Depois, na hora de levantar para ir almoçar, lá está ele, caído ao lado da cama.
Ela jamais iria esquecer daquela noite antes do derrame. (O café tinha sido dado pela sua tia). Ele que dizia que ia dormir e as filhas dizendo para ele esperar mais um pouco. Ele usando suas estratégias, gemia, pedia para uma, depois para outra e depois, obviamente, “apelava” pra neta. Ela o olhou e disse:
_ Mas é cedo ainda! Come uma bala!
Sabe-se lá por que ela perguntou se ele não queria uma bala! O fato é que ele se virou para uma das filhas e perguntou:
_Posso comer uma bala?
E aquelas seriam as últimas palavras que ela ouviria seu nono pronunciar.
Derrame. Lado esquerdo paralisado. Perde os movimentos, a fala, entre outras coisas. Mas seu olhar diz muito, diz tudo.
E foi assim por alguns meses, até o momento em que, com muita tranquilidade, ele deixa a prisão do seu corpo físico e retorna à Pátria Espiritual.
A viagem foi rápida e abençoada, anjos e seres os mais variados o acompanhavam. Quem pudesse observar, teria a certeza de que todas as crenças, sem excessão, quando se voltam para o bem, jamais se excluem. Elas se completam, ou, se já são completas, seguem caminhos paralelos, estradas diversas, cujo ponto final, no entanto, é o mesmo.
Os seres de luz que o acompanham tomam formas diversas, como se fossem anjos, santos, hinduistas, mestres japoneses e espíritos de luz. Tudo porque, cada um com a sua fé, seus 6 filhos estavam presentes na hora do “até logo”.
Regressando, assume rapidamente sua forma mais jovial e sorri de alegria ao ver quem o espera. Logo ao chegar, avista, com um sorriso no rosto e os braços abertos, sua querida esposa. Sabendo que ele é um recém chegado e que muito proavelmente não tenha deixado de sentir as necessidades dos encarnados, plasma um delicioso quitute!
Logo mais outros espíritos vêm se aproximando e assim ele se vê circundado (e abraçado) de cada um dos seus 8 irmãos e para finalizar o encontro, é duplamente abraçado pelo seu pai e sua mãe.
Enquanto isso, na Terra, as coisas seguem. Surge a questão: e “Ela”?
Sua neta não estava fisicamente presente na hora do desencarne, mas talvez estivesse ali de espírito. Pois ela, naquela noite, sonhara. Sonhara com a escola e com ela que dava a notícia que seu nono tinha falecido. E todas as dúvidas de como se sentiria após o seu desencarne desaparecem. E ela se dá conta do quanto muitas vezes tendemos a imaginar coisas e até a sofrer antecipadamente, sem razão. Porque, na verdade, as coisas não só aconteceram de uma forma super serena e tranquila como, vira e mexe, por um longo período, eles iriam se encontrar durante o sono. E, ao despertar, ela não apenas acordaria com uma sensação de serenidade mas, especialmente, iria precisar de alguns minutos para raciocinar e dar-se conta de que ele não estava mais neste mundo.
Os encontros durante o sono, as viagens para outros lugares e dimensões a permitiriam de se despedir daqueles que voltariam para a morada do Pai Maior, mesmo ela estando fisicamente distante milhares de quilômetros. Foi assim que, poucos dias antes que falecessem, ela conversou com seus tios. Até hoje, alguns anos depois, ela sabe descrever direitinho o quarto do hospital onde seu tio estivera pouco antes de falecer, mesmo sem nunca ter fisicamente ido até lá.
E o que isto tem a ver com cuidar? Não sei. Mas se estas linhas surgiram exatamente neste espaço, certamente alguma relação deve ter.
E ela vira escoteira e sabe-se lá por que as atividades de ajuda ao próximo se tornam as suas preferidas. Resolve então ser Psicóloga.
Um dia, na cadeira de Psicologia Comunitária, é convidada por uma colega para fazerem juntas um progeto, visto que moram na mesma cidade. E aquela experiência lhe marcaria por toda a vida.

Eu e o noninho!

Eu e o noninho!

Relatos de uma vida (Parte 5: sobre a arte e o prazer de viajar)

4 mar

Capítulo V. Sobre a arte e o prazer de viajar.

Viagens. Tantas, inúmeras, infinitas. Lugares diferentes, perto, distantes. Viagens iguais para lugares diferentes, viagens diferentes para os mesmos lugares. Lugares novos, lugares vistos e revistos, mas cada vez com um novo olhar. O velho que parece novo, o novo que parece velho. Tem coisa melhor do que viajar? Viagens completas, de corpo, de alma, de espírto. Viagens que parecem sonhos, sonhos que viram realidade. Sonhos que parecem reais (E que, na verdade, o são, mas em uma dimensão diferente).
De carro, de ônibus, de trem, de avião. Só com o pensamento e o coração. Viagens durante o sono, para lugares cuja distância é impossível calcular. Viagens no tempo (sim, é possível), para ir ao encontro de outros seres e espíritos afins, para buscar algo, talvez pedir uma orientação. Percorrer caminhos, alguns tortuosos até. Atravessar rios, atolar na lama, “cair de bunda”. Depois erguer-se e continuar. Parar no meio do caminho, se reabastecer e seguir adiante. Comidas, bebidas, olhares. Conhecer lugares, cidades, Países, praias, montanhas, Universos paralelos.
Atravessar oceanos, conquistar espaços, realizar sonhos. Correr riscos e nunca, nunca desistir da sua meta principal: a felicidade. E era assim que a nossa personagem encarava a vida: como um eterno viajar, um caminho a ser percorrido, sem dramas, sem dores, sem muitas explicações, sem arrependimentos. Alguns trechos, melhor percorrer a pé.

Os melhores lugares eram aqueles percorridos na Espiritualidade. E ela sabia disto, ela percebia, embora ao acordar não possuísse praticamente nenhuma lembrança concreta. Permanecia, no entanto, a “sensação”.

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Relatos de uma vida (Parte 4: o teatro e a música)

3 mar

Capítulo IV: peça de teatro e a música. (Sim, a música!)

Tímida, sensível, frágil. “Um vaso de cristal”. Era assim que os outros a definiam, sem saber que na verdade sua extrema sensibilidade era devido ao seu dom de perceber além das aparências. A sensibilidade iria sempre fazer parte de si, do seu ser, mas não a impediria de tornar-se uma mulher repleta de coragem, capaz de enfrentar obstáculos e desafios que lhe seriam impostos.
Una caracteristica que sempre fez parte da sua personalidade foi o não acreditar no acaso. Assim, passaria a agradecer sempre, pelas coisas que dão certo e por aquelas que não dão. Afinal, no final sempre acabava descobrindo que tudo acontecera pelo melhor.
Falemos então sobre o teatro. Sua mãe era uma apaixonada, e, como é a tendência natural de todas as mães, pensou que também ela (a filha) pudesse se apaixonar. E ela gostou. Sim, gostou, depois enjoou, depois, já na adolescência, voltou. Um dia, escreveu uma peça de teatro, um musical, sendo que as personagens foram criados usando como “pano de fundo” as fantasias que sua mãe tinha em casa. Os atores? Atrizes. Sua colegas, melhores amigas da época. (Sonhadora como era, criou a história, que era toda cantada. Deu a cada uma delas uma personagem, mas elas jamais iriam ficar sabendo. O nome delas? Liziane, Giovana, Joice, Fabiana.
Pra variar, a história era repleta de fantasia. Novamente, uma menina. Uma menina que pegava no sono e despertava em um lugar encantado. Como numa dança, os personagens iam se apresentando, cantando, dançando. Que fim será que levaram aqueles escritos?
Parece incrível mas, passados mais de 20 anos, ela ainda lembra da tal história. E o mais interessante, ainda sabe de cor algumas das músicas criadas. Lembra ainda do texto, e também do ritmo das canções. E ela canta:
Aurora
“Eu sou a aurora, aurora, aurora, que veio cantar.. .cantar… cantar….
Eu sou a aurora, que veio dançar…
Nas noites felizes (felizes, felizes), eu hei de surgir… surgir… surgir…
E as noites infelizes,não vão existir!!
Pois eu sou a aurora, aurora… aurora….

Cogumelo
Meu nome é Cogumelo Sapeca
Porque eu canto,
Uma linda canção.
Preste atenção,
Você vai reconher
Pois esta música vem
Do fundo do seu coração!
Cante comigo agora,
Que a noite já vai embora
Vamos cantar e dançar
Que o dia já vai raiar!!

Foi o seu tio que, de pequena, a acostumou a ouvir canções para dormir. E todos, desde sempre, a incentivavam a cantar e ela, com o dom de imaginar, de sonhar, de criar, escrevia poesias, rimas e canções. Esperta e atenta, muitas vezes iria esgotar o repertório do tio, que se “salvaria” com o Hino Nacional. (Dizem que isto a ajudou a tornar-se ainda mais patriota. Quem sabe?)

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