Numa sexta-feira qualquer

25 set

Sexta-feira, 23 de setembro de 2016, 19:45h. Ônibus lotado, um monte de gente em pé. Como infelizmente ocorre quase sempre, alguns jovens sentados, arrumados para ir pra festa (estamos na Semana da Moda) e trabalhadores, idosos e outras pessoas, cansadas devido à dura jornada ou ao peso da idade, em pé se equilibrando.
Com o tempo eu aprendi que se se libera um lugar para sentar perto de onde estás, convém aproveitar. Sem pensar duas vezes, vou lá e sento.
“Credo! Como assim? E os idosos? E as gestantes?”
Calma, posso explicar.
Mais de uma vez aconteceu que, quando um lugar se liberava, o tempo que eu levava para chamar a pessoa idosa e avisar que tinha um assento livre era maior do que o tempo que um “espertinho” praticamente “se jogava” no banco para garantir o seu lugar. Então, hoje em dia eu faço diferente. Eu sento. Sento e, sentada, ofereço o meu lugar. Às vezes até com “telefone sem fio”, cutuco uma pessoa e digo: “Podes chamar aquele senhor ali pra mim, por favor? Obrigada!”
Um episódio destes aconteceu justamente na viagem que comecei a descrever acima. Desta vez porém o desfecho, especialmente para mim, foi muito particular.
Como comentei logo acima, o ônibus estava lotado, várias pessoas em pé. Dentre elas, um casal. Um casal que se via que eram pessoas com dificuldades econômicas. A gente percebia. Sabem quando uma pessoa (a mulher) tenta se vestir bem, toda combinada, usar bolsa, etc, mas percebes que provavelmente mora na rua? Pois é. Já o homem, que depois soube que era sim seu marido, um senhor magrinho, já de barba e cabelos brancos, carregava uma mochila nas costas que parecia ser super pesada.
Quando entrei no ônibus eles já estavam lá. Sobe gente, desce gente, senta, levanta e eles lá. Até que eu consegui sentar. No que eu sentei, como sempre faço, olhei ao meu redor para decidir para quem eu iria oferecer o meu lugar. Chamei então aquele senhor e para que ele não se sentisse constrangido, comentei que sua mochila devia estar bem pesada, por isso estava lhe oferecendo o meu banco! O senhor me olhou e sorriu, com os olhos marejados. Me agradeceu, concordou que a mochila era sim bem pesada, mas me fez um pedido: “Se eu ñ me importava, ele preferia ceder o lugar para a sua esposa, que “não estava se sentindo muito bem”. E juro, fazia tempo que eu não via alguém assim tão agradecido por um gesto tão simples. Ficamos então os dois em pé, um ao lado do outro e começamos a conversar. Tenho certeza que o sorriso daquele casal, olhos marejados, irá sempre me acompanhar.

Resumindo um pouco da sua história: italianos. Faltavam 2 anos para completar 40 anos de serviço quando as coisas mudaram. Se viu aposentado, ganhando muito menos. Ficaram doentes, mais gastos. Por 28 anos pagou o “mútuo” (investimento) para ter uma casa própria. Hoje, ficaram sem nada. Ele e a esposa vivem na rua. Sempre emocionado, me conta como é difícil a vida nas ruas e como se envergonha de às vezes precisar pedir esmola. Para ele esta é a pior parte, porque é neste momento (palavras dele) que o homem perde a dignidade. E ele continua contando coisas sobre a sua vida, sobre o fato que às vezes comem coisas que ñ deveriam, mas precisam sobreviver (imagino que em alguns momentos foram buscar no lixo alguma coisa). Fala que está em tratamento de saúde, mas nem sempre consegue medicação. Percebo seu hálito com um inconfundível cheiro de álcool e falamos também sobre isto. Não, ele não estava bêbado ou algo parecido, mas muitas vezes, especialmente agora que começa a esfriar, a bebida acaba sendo um modo para se aquecer. Italianos, moradores de rua após uma vida inteira trabalhando. Talvez se não fosse pela mochila meio gasta e pelo chinelo de dedo que a senhora usava (que não combinava com o vestido), teriam passado despercebidos. Limpos, bem cuidados, ele a tratando com todo o carinho do mundo.
Chegou a hora de eu descer. Ele? Me agradeceu. Não me pediu nada, absolutamente nada. Eu comentei que, quem sabe, ainda iríamos nos reencontrar.
Depois de descer do ônibus, pensei que talvez eu pudesse ter feito algo mais por eles. Podia ter perguntado onde costumam ficar, o que precisam com mais urgência, enfim. Bem, mas nada é por acaso. Se tiver que ser, um dia nossos caminhos se cruzarão novamente e eu talvez possa fazer algo mais por estas pessoas que me deram a oportunidade de mais esta reflexão.

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