Sobre tatuagens

8 set

Não lembro quando foi que comecei a me interessar por tatuagens. Provavelmente muita gente, ao me ver, sequer pode imaginar que uma “assim como eu”, com seu jeito “meigo”, meio tímido e reservado, possa se interessar por uma “coisa” deste tipo. Aliás, um comentário que ouço com muita frequência é: “Mas é de verdade”?

Falando nisto, a “verdade” é bem outra. Para que se possa ter uma ideia de como o meu interesse pelas tatuagens não é de hoje, basta lembrar que o o tema do meu trabalho de conclusão da Faculdade de Psicologia foi exatamente este: tatuagens.

Com o título “Os usos da tatuagem: o corpo como tela de significados”, o trabalho, em um primeiro momento, discorria acerca questões históricas e culturais, para depois entrar em uma análise mais profunda sobre seu simbolismo, com um foco analítico.

No período em que escrevia o trabalho, pude entrar um pouco no “Mundo das tatuagens”, visitando estúdios, conhecendo tatuadores e tatuados e sabendo um pouco mais sobre os amantes desta “arte na pele”.

O trabalho era qualitativo e as conclusões a que cheguei foram fascinantes, a ponto de fazer aumentar ainda mais o meu gosto pelas tatuagens. Sim, talvez a vontade de me tatuar tenha partido dali.

Quinze anos. Quinze anos se passaram e apenas agora a tatuagem chegou. Por um ou outro motivo, passei 15 anos da minha vida pensando que, um dia, faria uma tatuagem. (“Tatoo” para os íntimos).

Dúvidas sobre em que parte do corpo fazer a tatuagem, insegurança sobre a figura a ser escolhida, medo que surgisse um arrependimento, insegurança diante da palavra “para sempre”, enfim. As razões práticas e teóricas para que eu levasse tanto tempo para me tatuar foram várias. Hoje me dou conta  que além destas, existem razões ligadas ao emocional, ao “psi”. Razões ligadas muito mais à alma que ao corpo.

Quando escrevi a minha tese, cujo resumo foi publicado na Revista Brasileira de Psicoterapia do Instituto Luis Guedes da UFRGS, eu havia “identificado” 3 perfis de pessoas que buscavam as tatuagens. Hoje, começo a me questionar se não existiria um quarto perfil, ou ainda, se existem tantos perfis possíveis quando pessoas no Mundo.

A tatuagem, como uma pessoa que observas (e que te observa) de longe, como aquele vizinho que recém se mudou e ainda não sabes se é simpático ou não, foi se aproximando da minha vida assim, aos poucos, sem pressa, passo a passo. Ela veio, se apresentou, me contou um pouco da sua história. Durante anos, sempre que nos encontrávamos nos corredores da vida, nos olhávamos, nos cumprimentávamos, sorríamos. E cada uma seguia o seu caminho, porém sempre com um “até logo”, nunca com um “adeus”. Até o dia em que uma resolveu entrar na vida da outra.

Impossível negar que este encontro se deu no melhor momento e que hoje entendo muito bem a razão pela qual tal “fusão” não se deu antes. Quantas coisas aconteceram nestes ultimo 15 anos! Quantas mudanças, quantas estradas percorridas, quantas batalhas vencidas!

Não tem como negar que a tatuagem é um marco, um símbolo que conta não apenas uma, mas tantas histórias. O significado é pessoal, simbólico, profundo e, acima de tudo, mutável. Porque sim, é para sempre (ou não), mas isto não quer dizer que seja estática. Não, não o é. O desenho pode até ser estático, mas o sentido, o significado que eu atribuo pode muito bem mudar. O mesmo vale para a escolha do lugar do corpo em que ela foi feita.

Chegamos então ao X da questão: Marian (eu) tatuada. Uma tatuagem não tão pequena como inicialmente tinha imaginado, mas com muito mais sentido do que eu podia pensar. O lado do corpo, o direito, para representar o futuro, o porvir. Liberdade, renascimento, novo ciclo. Alçar vôo, renascer… ampliar horizontes, ir (e ver) além das aparências. E por aí vai.

Uma coisa curiosa de quando nos tatuamos é que acabamos descobrindo que um monte de gente que nunca imaginávamos que pudesse haver tatuagens na verdade as possuem. Começamos então a questionar se não estávamos caindo naquele vício de julgar, alimentando preconceitos (pré-conceitos) e esteriótipos.

Quando resolvi me tatuar segui a emoção, embora a razão também se tenha feito presente na minha tomada de decisão. Medindo prós e contras, os contras foram automaticamente sendo anulados. Entre os “prós”, um deles pode ser considerado meio macabro para alguns: o fato de que, com a tatuagem,em caso de necessidade, pode ser mais fácil identificar o meu corpo. (Pode isso?). Tatuagem tem a ver com identidade, é como uma impressão digital.

Sabe aqueles filmes ou teorias da conspiração em que as pessoas possuem um chip onde fica registrada toda a história da sua vida? A sensação que a “minha” tatuagem me dá não é exatamente esta, mas é muito parecida. Porque ela revela muito de mim, basta saber ler.

Demorei anos para decidir onde e o que tatuar. Passei da ideia inicial de algo muito pequeno e escondido á um desenho um pouco maior e mais visível. Metaforicamente falando, também a minha vida parece ter sido assim, inicialmente pequena, tímida, escondidinha, para aos poucos ir desabrochando, conquistando o seu espaço, atravessando oceanos, voando na busca e na realização dos sonhos.

Hoje, quando observo (no espelho ou em fotos) a minha escápula tatuada, a primeira coisa que me vem em mente é: “Nossa, quanto espaço livre ali atrás para outras tatuagens”! (Talvez a “lenda” que quem se tatua uma vez tem grandes chances de se tatuar de novo não seja tão lenda assim!)

Para concluir: acabo de ler que os pássaros simbolizam a inspiração, o misticismo, o Divino. Proteção, amor. Não tinha pensado em tudo isto, mas confesso que cada vez gosto mais de ter seguido a minha intuição, inclusive na mudança de última hora de um desenho por outro! (De uma figura banal à uma que expressa a minha identidade, que me diferencia, me tira do “lugar comum”)

 

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