Arquivo | junho, 2011

Desabafo… (porque às vezes, antes de deixar pra là, a gente tem que dar um jeito de desabafar…)

5 jun

Sei que na vida, nada é por acaso, e que tudo vem no momento certo. Sei que  sou eu quem faz o meu caminho, que tenho livre arbìtrio, que sou dona das minhas escolhas. Sei também que, na maioria das vezes, uma derrota vem para que, quando a vitòria chegar, seu sabor seja ainda mais apreciado. Sei que Deus escrever certo por linhas tortas, e que tudo tem o seu lado bom. Mas sou, acima de tudo, HUMANA, e extremamente sensìvel. Por isso, confesso que nao pude (e nem tentei) conter as làgrimas, diante da derrota no exame de psicologia. Làgrimas de quem se sentiu derrotada mas, mais do que isto, humilhada até. Decepcionada, eu diria. Nao consigo mesma, mas com o sistema. Làgrimas de quem acredita ter sofrido uma injustiça, e que talvez sofra justamente por isso: por, nos dias de hoje, ainda acreditar num mundo justo.

31 de março de 2011, prova “atitudinal”, para ser reconhecido como psicòlogo e poder, finalmente, atuar.

Horàrio estabelecido para a prova: 08:30. Sao 09:30, e seguimos em pé no corredor, cada vez mais ansiosos. Sao quase 10hs, quando começam a chamar. A desculpa? Estàvamos nos organizando!! (Detalhe: hà mais de 2 meses que se “organizavam”!) Detalhe: todos profissionais formados, jà atuantes, especialistas em vàrias àreas. Eu, como muitos outros, pensei: somos profissionais. Acho que as perguntas serao mais de ordem pràtica, seria o lògico. Afinal, jà trabalhamos na àrea… hà anos!!Conhecimento da teoria, de autores, etc… Còdigo Deontològico…

Agora eu pergunto: o que é mais importante, saber identificar caracterìsticas que fazem pensar que uma pessoa tem um distùrbio, ou saber, por exemplo, o que é narcisismo para Kohut, ou como Kernnberg define a personalidade Borderline?

Sobre o còdigo de ética, o que me interessa saber se o segredo profissional tem a ver com privacy o confidenziabilità? Nao é muito mais importante simplesmente respeità-lo, e saber os raros momentos em que ele pode ser violado?

E questoes de mùltipla escolha onde TODAS as alternativas estao corretas, mas tens que assinalar aquela que é correta de acordo com aquele especìfico autor (tendo estudado uma relaçao de uns 20, 30 autores diferentes?)- Acredito nao ter sido a ùnica que estudou para “entender”as diferenças e as escolas de cada um, e nao para “decorar” as coisas no literal…

Curriculum?? Sinceramente, nao vale nada. Nem olharam. Na prova, gente formada hà anos, gente recém formada. Gente de todo o mundo, inclusive de outros lugares da Europa.  Um psicòlogo do trabalho, tendo que fazer uma prova de Dinamica. Uma psicòloga cognitivo-comportamental, pra quem fizeram responder uma prova de psicanàlise. Um psicoterapeuta, que, agora eu digo, pro seu azar, esciolheu fazer a escola de psicoterapia fora. Uma americana PHD. Eu, psicòloga, psicooncòloga, psicossomatista, com um master em Cuidados Paliativos, tendo que falar sobre Psicologia Social, sobre persuasao, ategiamento, conformismo… Duas da mesma faculdade, colegas, mesmo curriculum, mesma época, matérias diferentes. Resultado: uma passa, a outra reprova. Alguns com 1 matéria, outros 2, outros 3, outros 4. O tempo para resolver as provas muda, mas nao o tempo de estudo, jà que todos foram avisados na mesma época.

Chega o resultado. Deixamos de ser humanos, viramos nùmeros. A desculpa: “rispetto alla vostra privacy”. Site do Ministério, site da Universidade. Està escrito: NON AMESSO. (escrito 14 vezes). 8 pessoas passaram, e tenho quase certeza que eram os que tinham menos matérias para estudar. Temos também um outro còdigo, para o site da Universidade. Um còdigo por matéria. Teoricamente, daria para ver a nota dos exames. Sò teoricamente. Nao faço idéia se fui mal em todos, ou se em algum eu tinha conseguido passar. Terei que fazer tudo de novo, se quiser ter meu tìtulo reconhecido. Pois, como disse a mulher do Ministério, a prova é um “conjunto”. Se nao passa, tem que refazer TUDO (mesmo que tenha gabaritado uma delas!).

O interessante é que, para refazer, tem que ser tudo. Para corrigir, no entanto, era tudo separado. Bem que o presidente da comissao, que era da Universidade, tentou nos ajudar, dizendo que valeria a média e que, entao, se fossemos mal em uma, mas bem na outra, compensaria. Foi cortado “na hora” pela tal mulher que, aliàs, nao fazia nenhuma questao de ser gentil.

Nao vejo nada de mal em me sentir estudante, mesmo depois de formada e triplamente pòs-graduada. Depois de ter trabalhado, e de saber que o trabalho é solicitado, admirado e reconhecido. O que é difìcil, é sentir-se tratada quase como um “nada”… Ler uma prova e se dar conta que o que querem é que repitas exatamente as palavras do livro. Do livro “deles”. Sem mais, nem menos. E qual é o livro deles? Um daqueles 30, 40. De repente tens sorte de ter lido exatamente o eleito!

A prova passou, mas sigo tensa. Acho que temos todo o direito de saber o que erramos, ou, pelo menos, saber em qual prova fomos melhor. Saber as notas. Talvez essa “divulgaçao”- Um nùmero e o escrito amesso ou non amesso do lado- seja uma forma para impedir uma reivindicaçao. Engraçado que, logo numa profissao como a psicologia, que fala tanto em respeito pelo ser humano, e critica quem ve o ser humano como uma “màquina”, sejamos reduzidos a uma lista de nùmeros, e sigamos sem saber “o que realmente aconteceu”.

Agora, tem que fazer uma “domanda formal”. Com isto, eles te convocam de novo, para fazer a prova de novo. As provas. Sim, olha como sao bonzinhos, te dao uma segunda chance! (Nao tenho certeza, mas muito provavelmente pagando de novo). Mas tudo tem seu lado bom, né? E um deles vai ser rever o pessoal. A turma dos “reprovados” como eu. Trocamos telefones, jà nos falamos, desabafamos, criticamos, rimos, quase choramos… Talvez esta decepçao geral tenha servido pra gente se unir. Pessoas que até ontem eram estranhas, começam a se tornar amigas. Graças à uma prova “impossìvel e injusta”. Sim, este era o termo mais usado: uma prova “impossìvel de ser resolvida”…

Agora, consegui mais 3 livros pra estudar. Devem chegar em uma semana. Livros que antes estavam em falta nas livrarias. Me autorizei um “tempo” de alguns dias, antes de retomar os estudos. Depois, é recomeçar. Ainda mais que, desta vez, mais do que entender, vou precisar é decorar… (alguém conhece alguma técnica?)

O que me deixa mais triste? Saber que estudei MUITO, que tenho CAPACIDADE, que sou uma òtima profissional, mas que NADA DISSO INTERESSAVA…

Devo tirar um aprendizado também disto. Eu chego là. Mas, por hora, precisava simplesmente desabafar…