De um texto de Rubem Alves

7 abr

A
COMPLICADA ARTE DE VIVER (RUBEM ALVES)

Ela
entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu
fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura.
"Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os
tomates, os pimentões – é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a
cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato
banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto.
Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente
ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea
de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido,
se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu
quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa
espanto."
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à
estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo
Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação
ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma
cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de
cristal’.
Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta…
Os
poetas ensinam a ver". Ver é muito complicado.

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